A ideia deste blog surgiu há
muito tempo, com o propósito de escrever sobre o que me apetecesse quando me
apetecesse.
Até hoje apeteceu-me escrever
sobre muita coisa mas nunca achei que o assunto em questão fosse o indicado
para ser o primeiro post de um blog.
Como se alguém se importasse com isso, a não ser eu!
Apeteceu-me escrever sobre
política, futebol, a minha terra, a terra dos outros, gastronomia… enfim. Um
sem fim de assuntos que sempre esbarrou na importância do primeiro post. “Tem que ser algo marcante para
mim!”, pensava eu.
Muitos acontecimentos me marcaram
desde a minha juventude, e sei que mais tarde haverei de falar sobre esses
momentos, tais como a vitória do Carlos Lopes em Los Angeles em 84, as
presidenciais de 86, a mal fadada final de Estugarda em 88, ou os Jogos
Olímpicos de Barcelona em 92, entre muitos outros.
Durante algum tempo pensei no que
haveria de escrever, confesso. Não queria ser mais um a escrever sobre futebol
ou política. Apesar de serem temas que vão ser retratados aqui, mas com a minha
visão sobre as pessoas, momentos ou acontecimentos. Porque os factos já toda a
gente os sabe.
Então interiorizei que um dia o
tema haveria de chegar por si… e chegou. Hoje!
Relacionado com futebol e com o
Benfica. Tanta coisa para ir bater ao sítio do costume… é mais ou menos isso,
confesso.
Sou do Benfica por inerência.
Nunca imaginei que alguém possa não ser do Benfica. Faz-me confusão. O meu pai
era, e é, doente pelo Benfica. Apesar de dizer que não. Vai ao café ver os
jogos e sai furioso ao intervalo se estivermos a perder. O meu irmão é doente
pelo Benfica. Nunca vê os jogos… quer dizer: “vi um bocadinho”, ia “vendo aqui
e ali”. Nunca jogam nada. Eu sou igual. Perdemos horas ao telefone a falar do
Benfica. A Vodafone e a Optimus agradecem!
Acho até que a geração do meu
pai, já dizia mal do Benfica do Eusébio. Se aos 10’ não estivéssemos a ganhar
por 3 não jogavam nada. Nunca jogamos nada.
Cresci pois, com o Benfica em
todo o lado. De manhã, ao almoço, à noite no relato das competições europeias.
As crianças e jovens de hoje nunca vão perceber que, antigamente, os jogos não
davam em direto na televisão.
O meu primeiro ídolo foi o Nené.
Já em fase descendente da carreira era considerado velho pelo meu pai. Será que
foi por isso? Gostei do Maniche… que afinal era mesmo grande e tosco. Havia
toda uma geração que seria impossível não gostar: Carlos Manuel, Bento, Veloso,
Diamantino, Chalana… enfim. Só posso ter saudades.
No entanto, o Benfica continuava
a ser lá de casa. Não era meu… era uma partilha familiar em que os mais velhos
ditavam as regras. A minha mãe, do Sporting, nunca tivera qualquer influência
na decisão. Obrigado, Mãe! De vez em quando perguntava: “como ficou o meu
Sporting?” Denotava sempre um gosto especial na voz do meu pai quando
respondia: “perdeu”.
Claro que a cultura benfiquista
aparecia em todo o lado. O meu irmão fazia campeonatos de hóquei em patins com
caricas e curiosamente o Benfica ganhava sempre. A volta a Portugal em carica
também era um clássico de Verão. O futebol de mesa era do Benfica. O Subbuteo
tinha apenas um único campeão. Tal como Abraracourcix diz numa das páginas de
Asterix nos Jogos Olímpicos, “assim é que eu entendo o desporto: nada de
incertezas!”
Depois havia os treinadores: Eriksson
e o seu chapéu da Macieira, o Mortimore e a sua camisa vermelha, o Pal Csernai,
o Skovdahl e o… Toni!
E aqui o Benfica começa a ser só
meu. O Toni já andava por lá desde sempre. Era o adjunto. A história do Benfica
já se confundia com o Toni, ou seria ao contrário? Nunca o vi jogar. Tenho
pena… um poço de força dizia o meu pai! Desde 68 no Benfica, ganhou campeonatos
e taças como gente grande. O costume, à época! No final de carreira o Lajos
Baróti incentivou-o a enveredar pela carreira de treinador. Via capacidades no
rapaz. E começa como adjunto com o Eriksson.
Continuou com o Mortimore,
Csernai e Skovdahl. E de repente o Scovdahl é despedido… na ânsia de encontrar
um novo Eriksson os dirigentes encarnados tinham tentado fazer deste
dinamarquês de tenra idade aquilo que não era nem nunca foi.
E entra António Oliveira, vulgo
Toni. E desde esse dia entrou no meu coração e alma benfiquista como nenhum
outro benfiquista conseguiu (desculpa Óscar Cardozo, mas não és do Benfica. O
Toni é!).
Os factos todos sabem, não vou
entediar ninguém com isso. Mas os momentos que este homem me deu à frente do
Benfica, são únicos. Irrepetíveis. Inigualáveis. Alegres e tristes. Emotivos e
emocionais.
Primeiro a final de Estugarda. Com
o campeonato perdido para o Porto, a tábua de salvação era a final de
Estugarda. O Toni deixara o Diamantino de fora em três jogos para o campeonato:
Belenenses, Braga e Académica. A equipa dependia dele. Era o estratega, o
líder, o melhor jogador. Na semana antes da final da Taça dos Campeões, Benfica
– Guimarães para o campeonato. Benfica todo de vermelho. Diamantino sai aos 40’
vítima de uma entrada violenta de um jogador adversário. Não jogaria a mais nessa
época. O Benfica começava ali a perder a final da Taça dos Campeões.
25 de Maio de 1988. Estugarda.
Benfica todo de vermelho. Sem Diamantino. Com Rui Águas e Magnunsson. Acabámos
sem avançados. Entraram Hajry e Wando. Equipa com garra mas sem talento. Nem as
botas e as meias do equipamento todo vermelho ajudaram. Quando Wando tinha uma
bola nos pés que podia dar golo já perto do fim do jogo pensei que Toni poderia
fazer o impossível. Ganhar a Taça impossível contra os favoritos. Sim! Visto à
distância, que equipa fabulosa tinha o PSV. Lerby, Nilssen e Heintze da minha
querida “Danish Dinamite”. Frank Arnesen lesionado, não pode jogar. Vanenburg,
Gerets, Koeman, Van Breukelen, Van Aerle eram reis e senhores da Europa no
final dessa época.
Nos tínhamos o Hajry e o Wando. O
capitão foi o Shéu com 35 anos. Tínhamos o Mozer, é certo. O Chiquinho Carlos
também. E o Veloso. Jogou que se fartou. E falhou aquele penalty que ainda hoje
me custa rever. O sonho caiu ali. Pensei nesse mesmo dia que nunca mais iria
ver o Benfica numa final da Taça dos Campeões. Como estava tão errado... E mais
me custou ainda quando vi os jogadores do PSV com as t-shirts de campeão
gravadas. Como se soubessem que a vitória era certa. Que raiva!
Para ajudar nesse mesmo ano, o
Benfica ficou a 15 pontos do Porto e perdemos na meia-final da taça com o mesmo
adversário 1-0. Rui Barros já perto do fim. Acabava ali uma época marcada por
aquele penalty.
Por incrível que pareça, o Toni
ficou como treinador principal. Seria a sua primeira época completa como
treinador.
Na época seguinte ganhámos o
campeonato, com o Vata a ser o melhor marcador com 16 golos. Jogos ganhos no
fim, com bicicletas do Abel Campos, dois golos do Pacheco contra o Leixões já
depois da hora… Não jogávamos nada. O costume… mas fomos campeões.
E perdemos a final da taça contra
o Belenenses. Aquela expulsão estúpida do Valdo e aquele golo parvo do Juanico
que o Silvino teve medo de defender. O costume também... Que saudades do Bento!
E depois… vem o Eriksson outra
vez. O Toni aceita ser adjunto, diretor técnico na altura… um treinador
campeão, aceita relegar-se ao trabalho secundário. Por amor ao Benfica. “Toni?
Toni do Benfica?” Alguém mais conseguia fazer isto? Acho que não.
Eriksson entra, ganha, sai,
jogamos mais uma final de uma taça dos Campeões e perdemos como de costume. E
entra o Toni outra vez.
É preciso ter estômago. E ele
teve…
Perdemos o campeonato de 92/93
por 2 pontos, e ganhámos a taça. Equipa fabulosa. Pena o Benfica estar em modo
de destruição.
Na Europa quartos-de-final contra
a Juventus. 3 secos em Turim para não haver confusões. Nem fiquei chateado. Era
normal… não jogávamos nada.
E de repente vem a época de
93/94. Se Toni já era o meu ídolo (desculpa Johan Cruyff, mas nunca escondi
isto!), mais ainda ficou a ser.
Verão quente, Pacheco e o vendido
do Paulo Sousa transferem-se para Alvalade. Nada que não tenha acontecido desde
sempre… O menino D’Oiro fica.
Época de raiva, contra tudo e
contra todos. Sem dinheiro, sem estrutura, sem apoio, mas com muita garra a
valor dentro de campo. A família benfiquista uniu-se e, mais uma vez, o Toni
estava lá. Fez das tripas coração. Fez de um conjunto de jogadores, uma equipa.
E quando no dia 14 de Maio de 1994, em Alvalade, quando todos os sportinguistas
esperavam o que toda a gente esperava: uma vitória lagarta, sem contestação, o
menino D’Oiro fez o que ninguém esperava que fizesse. Carregou uma equipa às
costas, marcou três golos e fez do Benfica campeão. Rui Costa no banco. E Toni
também. Para variar lá estava o Toni. Chamem-lhe o que quiserem. Ele estava lá.
E talvez tenha sido esse, até à altura, o melhor dia da minha vida.
Nesse dia o Barcelona foi campeão
depois do Djukic falhar o penalty em Riazor. O futebol total de Johan Cruyff
triunfava novamente. Depois da goleada 3-6 em Zaragoza não muitas jornadas
antes. O futebol era dos líricos. E eu considerava-me um lírico! Já não era o
Benfica que era só meu… era o futebol todo. Qual super-homem, qual Iron Man. Eu
era do Benfica, era do Toni e era do Cruyff do Barcelona.
Lembro-me que o Rui Costa começou
no banco. E o Queiroz veio cumprimentar o João Pinto quando saiu, até aí o Toni
foi um senhor. Como sempre foi. E a equipa titular só o Canhoto e o Hugo é que
sabem. O costume também.
Ganhámos. Éramos os maiores.
Entretanto aquela meia-final da
taça das taças. Aquela expulsão estúpida do Mozer em Parma. Aquele golo do
Sensini que o Júlio Iglésias português ficou a ver navios… e aquele penalty por
assinalar sobre o Schwarz… mais o penalty que o Paneira falhou na luz. Mais uma
vez uma final nos escapava e o Toni estava lá.
Depois vem o Artur Jorge e o Toni
a chorar no Domingo Desportivo. Não se faz a ninguém.
E nessa altura não quis saber do
Benfica. Isto é, queria mas não queria saber. Doía muito.
E o Toni volta de novo. O segundo
dia mais feliz da minha vida. Disse nesse dia que para o mundo ser perfeito só
se o Cruyff voltasse ao Barcelona (fez bem em não voltar...).
E voltou e teve de ser muito
benfiquista para fazer o que fez. Aguentar tudo o que aguentou. E saiu como
grande benfiquista que sempre foi. Maior ainda.
Pelo meio tivemos Bordéus,
Sevilha, sempre com um amargo de boca por ter de defender o Toni a fazer
figuras menos boas, ou até ridículas. Sempre me enervou o Jesualdo ao lado
dele. Nunca gostei dele. Odeio-o até. O tempo deu-me razão.
Dele se disse o bom, o mau e o
muito mau. Mais até o muito mau. No entanto, guardo para mim o dia em que
finalmente tive contacto com o meu ídolo de toda a vida.
Para mim e para mais três
bardinos albicastrenses que sempre me acompanharam nas desventuras lisboetas
desta vida.
Em pleno dia de Manel das Febras,
4 brilhantes mentes albicastrenses dirigiram-se ao estádio da Luz. Homenagem ao
corpo em câmara ardente de Miklós Fehér. À saída do Estádio da Luz já nas
escadas, este rapazinho que vos escreve vislumbrou a imponente presença de
António Oliveira. Toni, o Toni do Benfica. Não esteve de modos… fosse o ímpeto
de anos ou o impulso do traçado da tasquinha dos grelhados, dirigiu-se a ele
como um foguete. E disse-lhe tudo o que lhe ia na alma desde os seus tenros 12
anos.
E o Toni, tal qual qualquer
mortal, fez-lhe ver que o Benfica era muito mais que qualquer nome, figura ou
símbolo. O Benfica só era grande porque o Benfica éramos todos nós!
Dito pela boca do homem que
sempre admirei como o maior benfiquista de todos os tempos.
Desde esse dia, passaste a ser
ainda maior, António Oliveira. Toni. Toni do Benfica. Cada vez que te vejo na
televisão penso nas alegrias que me deste, nas tristezas que simbolizas, no
benfiquismo puro. Nunca quiseste mal ao Benfica. Dessa gente já não há. Como tu
já não existem.
Por isso e no dia no teu
aniversário escrevo o meu primeiro post.
Nunca poderia ser de outra forma. Como pude nunca ver quão simples era? Era
simples… tão simples.
“Toni? Toni do Benfica?”.
Parabéns António Oliveira.