segunda-feira, 14 de outubro de 2013

O primeiro post


A ideia deste blog surgiu há muito tempo, com o propósito de escrever sobre o que me apetecesse quando me apetecesse.

Até hoje apeteceu-me escrever sobre muita coisa mas nunca achei que o assunto em questão fosse o indicado para ser o primeiro post de um blog. Como se alguém se importasse com isso, a não ser eu!

Apeteceu-me escrever sobre política, futebol, a minha terra, a terra dos outros, gastronomia… enfim. Um sem fim de assuntos que sempre esbarrou na importância do primeiro post. “Tem que ser algo marcante para mim!”, pensava eu.

Muitos acontecimentos me marcaram desde a minha juventude, e sei que mais tarde haverei de falar sobre esses momentos, tais como a vitória do Carlos Lopes em Los Angeles em 84, as presidenciais de 86, a mal fadada final de Estugarda em 88, ou os Jogos Olímpicos de Barcelona em 92, entre muitos outros.

Durante algum tempo pensei no que haveria de escrever, confesso. Não queria ser mais um a escrever sobre futebol ou política. Apesar de serem temas que vão ser retratados aqui, mas com a minha visão sobre as pessoas, momentos ou acontecimentos. Porque os factos já toda a gente os sabe.

Então interiorizei que um dia o tema haveria de chegar por si… e chegou. Hoje!

Relacionado com futebol e com o Benfica. Tanta coisa para ir bater ao sítio do costume… é mais ou menos isso, confesso.

Sou do Benfica por inerência. Nunca imaginei que alguém possa não ser do Benfica. Faz-me confusão. O meu pai era, e é, doente pelo Benfica. Apesar de dizer que não. Vai ao café ver os jogos e sai furioso ao intervalo se estivermos a perder. O meu irmão é doente pelo Benfica. Nunca vê os jogos… quer dizer: “vi um bocadinho”, ia “vendo aqui e ali”. Nunca jogam nada. Eu sou igual. Perdemos horas ao telefone a falar do Benfica. A Vodafone e a Optimus agradecem!

Acho até que a geração do meu pai, já dizia mal do Benfica do Eusébio. Se aos 10’ não estivéssemos a ganhar por 3 não jogavam nada. Nunca jogamos nada.

Cresci pois, com o Benfica em todo o lado. De manhã, ao almoço, à noite no relato das competições europeias. As crianças e jovens de hoje nunca vão perceber que, antigamente, os jogos não davam em direto na televisão.

O meu primeiro ídolo foi o Nené. Já em fase descendente da carreira era considerado velho pelo meu pai. Será que foi por isso? Gostei do Maniche… que afinal era mesmo grande e tosco. Havia toda uma geração que seria impossível não gostar: Carlos Manuel, Bento, Veloso, Diamantino, Chalana… enfim. Só posso ter saudades.

No entanto, o Benfica continuava a ser lá de casa. Não era meu… era uma partilha familiar em que os mais velhos ditavam as regras. A minha mãe, do Sporting, nunca tivera qualquer influência na decisão. Obrigado, Mãe! De vez em quando perguntava: “como ficou o meu Sporting?” Denotava sempre um gosto especial na voz do meu pai quando respondia: “perdeu”.

Claro que a cultura benfiquista aparecia em todo o lado. O meu irmão fazia campeonatos de hóquei em patins com caricas e curiosamente o Benfica ganhava sempre. A volta a Portugal em carica também era um clássico de Verão. O futebol de mesa era do Benfica. O Subbuteo tinha apenas um único campeão. Tal como Abraracourcix diz numa das páginas de Asterix nos Jogos Olímpicos, “assim é que eu entendo o desporto: nada de incertezas!”

Depois havia os treinadores: Eriksson e o seu chapéu da Macieira, o Mortimore e a sua camisa vermelha, o Pal Csernai, o Skovdahl e o… Toni!

E aqui o Benfica começa a ser só meu. O Toni já andava por lá desde sempre. Era o adjunto. A história do Benfica já se confundia com o Toni, ou seria ao contrário? Nunca o vi jogar. Tenho pena… um poço de força dizia o meu pai! Desde 68 no Benfica, ganhou campeonatos e taças como gente grande. O costume, à época! No final de carreira o Lajos Baróti incentivou-o a enveredar pela carreira de treinador. Via capacidades no rapaz. E começa como adjunto com o Eriksson.

Continuou com o Mortimore, Csernai e Skovdahl. E de repente o Scovdahl é despedido… na ânsia de encontrar um novo Eriksson os dirigentes encarnados tinham tentado fazer deste dinamarquês de tenra idade aquilo que não era nem nunca foi.

E entra António Oliveira, vulgo Toni. E desde esse dia entrou no meu coração e alma benfiquista como nenhum outro benfiquista conseguiu (desculpa Óscar Cardozo, mas não és do Benfica. O Toni é!).

Os factos todos sabem, não vou entediar ninguém com isso. Mas os momentos que este homem me deu à frente do Benfica, são únicos. Irrepetíveis. Inigualáveis. Alegres e tristes. Emotivos e emocionais.

Primeiro a final de Estugarda. Com o campeonato perdido para o Porto, a tábua de salvação era a final de Estugarda. O Toni deixara o Diamantino de fora em três jogos para o campeonato: Belenenses, Braga e Académica. A equipa dependia dele. Era o estratega, o líder, o melhor jogador. Na semana antes da final da Taça dos Campeões, Benfica – Guimarães para o campeonato. Benfica todo de vermelho. Diamantino sai aos 40’ vítima de uma entrada violenta de um jogador adversário. Não jogaria a mais nessa época. O Benfica começava ali a perder a final da Taça dos Campeões.

25 de Maio de 1988. Estugarda. Benfica todo de vermelho. Sem Diamantino. Com Rui Águas e Magnunsson. Acabámos sem avançados. Entraram Hajry e Wando. Equipa com garra mas sem talento. Nem as botas e as meias do equipamento todo vermelho ajudaram. Quando Wando tinha uma bola nos pés que podia dar golo já perto do fim do jogo pensei que Toni poderia fazer o impossível. Ganhar a Taça impossível contra os favoritos. Sim! Visto à distância, que equipa fabulosa tinha o PSV. Lerby, Nilssen e Heintze da minha querida “Danish Dinamite”. Frank Arnesen lesionado, não pode jogar. Vanenburg, Gerets, Koeman, Van Breukelen, Van Aerle eram reis e senhores da Europa no final dessa época.

Nos tínhamos o Hajry e o Wando. O capitão foi o Shéu com 35 anos. Tínhamos o Mozer, é certo. O Chiquinho Carlos também. E o Veloso. Jogou que se fartou. E falhou aquele penalty que ainda hoje me custa rever. O sonho caiu ali. Pensei nesse mesmo dia que nunca mais iria ver o Benfica numa final da Taça dos Campeões. Como estava tão errado... E mais me custou ainda quando vi os jogadores do PSV com as t-shirts de campeão gravadas. Como se soubessem que a vitória era certa. Que raiva!

Para ajudar nesse mesmo ano, o Benfica ficou a 15 pontos do Porto e perdemos na meia-final da taça com o mesmo adversário 1-0. Rui Barros já perto do fim. Acabava ali uma época marcada por aquele penalty.

Por incrível que pareça, o Toni ficou como treinador principal. Seria a sua primeira época completa como treinador.

Na época seguinte ganhámos o campeonato, com o Vata a ser o melhor marcador com 16 golos. Jogos ganhos no fim, com bicicletas do Abel Campos, dois golos do Pacheco contra o Leixões já depois da hora… Não jogávamos nada. O costume… mas fomos campeões.

E perdemos a final da taça contra o Belenenses. Aquela expulsão estúpida do Valdo e aquele golo parvo do Juanico que o Silvino teve medo de defender. O costume também... Que saudades do Bento!

E depois… vem o Eriksson outra vez. O Toni aceita ser adjunto, diretor técnico na altura… um treinador campeão, aceita relegar-se ao trabalho secundário. Por amor ao Benfica. “Toni? Toni do Benfica?” Alguém mais conseguia fazer isto? Acho que não.

Eriksson entra, ganha, sai, jogamos mais uma final de uma taça dos Campeões e perdemos como de costume. E entra o Toni outra vez.

É preciso ter estômago. E ele teve…

Perdemos o campeonato de 92/93 por 2 pontos, e ganhámos a taça. Equipa fabulosa. Pena o Benfica estar em modo de destruição.

Na Europa quartos-de-final contra a Juventus. 3 secos em Turim para não haver confusões. Nem fiquei chateado. Era normal… não jogávamos nada.

E de repente vem a época de 93/94. Se Toni já era o meu ídolo (desculpa Johan Cruyff, mas nunca escondi isto!), mais ainda ficou a ser.

Verão quente, Pacheco e o vendido do Paulo Sousa transferem-se para Alvalade. Nada que não tenha acontecido desde sempre… O menino D’Oiro fica.

Época de raiva, contra tudo e contra todos. Sem dinheiro, sem estrutura, sem apoio, mas com muita garra a valor dentro de campo. A família benfiquista uniu-se e, mais uma vez, o Toni estava lá. Fez das tripas coração. Fez de um conjunto de jogadores, uma equipa. E quando no dia 14 de Maio de 1994, em Alvalade, quando todos os sportinguistas esperavam o que toda a gente esperava: uma vitória lagarta, sem contestação, o menino D’Oiro fez o que ninguém esperava que fizesse. Carregou uma equipa às costas, marcou três golos e fez do Benfica campeão. Rui Costa no banco. E Toni também. Para variar lá estava o Toni. Chamem-lhe o que quiserem. Ele estava lá. E talvez tenha sido esse, até à altura, o melhor dia da minha vida.

Nesse dia o Barcelona foi campeão depois do Djukic falhar o penalty em Riazor. O futebol total de Johan Cruyff triunfava novamente. Depois da goleada 3-6 em Zaragoza não muitas jornadas antes. O futebol era dos líricos. E eu considerava-me um lírico! Já não era o Benfica que era só meu… era o futebol todo. Qual super-homem, qual Iron Man. Eu era do Benfica, era do Toni e era do Cruyff do Barcelona.

Lembro-me que o Rui Costa começou no banco. E o Queiroz veio cumprimentar o João Pinto quando saiu, até aí o Toni foi um senhor. Como sempre foi. E a equipa titular só o Canhoto e o Hugo é que sabem. O costume também.

Ganhámos. Éramos os maiores.

Entretanto aquela meia-final da taça das taças. Aquela expulsão estúpida do Mozer em Parma. Aquele golo do Sensini que o Júlio Iglésias português ficou a ver navios… e aquele penalty por assinalar sobre o Schwarz… mais o penalty que o Paneira falhou na luz. Mais uma vez uma final nos escapava e o Toni estava lá.

Depois vem o Artur Jorge e o Toni a chorar no Domingo Desportivo. Não se faz a ninguém.

E nessa altura não quis saber do Benfica. Isto é, queria mas não queria saber. Doía muito.

E o Toni volta de novo. O segundo dia mais feliz da minha vida. Disse nesse dia que para o mundo ser perfeito só se o Cruyff voltasse ao Barcelona (fez bem em não voltar...).

E voltou e teve de ser muito benfiquista para fazer o que fez. Aguentar tudo o que aguentou. E saiu como grande benfiquista que sempre foi. Maior ainda.

Pelo meio tivemos Bordéus, Sevilha, sempre com um amargo de boca por ter de defender o Toni a fazer figuras menos boas, ou até ridículas. Sempre me enervou o Jesualdo ao lado dele. Nunca gostei dele. Odeio-o até. O tempo deu-me razão.

Dele se disse o bom, o mau e o muito mau. Mais até o muito mau. No entanto, guardo para mim o dia em que finalmente tive contacto com o meu ídolo de toda a vida.

Para mim e para mais três bardinos albicastrenses que sempre me acompanharam nas desventuras lisboetas desta vida.

Em pleno dia de Manel das Febras, 4 brilhantes mentes albicastrenses dirigiram-se ao estádio da Luz. Homenagem ao corpo em câmara ardente de Miklós Fehér. À saída do Estádio da Luz já nas escadas, este rapazinho que vos escreve vislumbrou a imponente presença de António Oliveira. Toni, o Toni do Benfica. Não esteve de modos… fosse o ímpeto de anos ou o impulso do traçado da tasquinha dos grelhados, dirigiu-se a ele como um foguete. E disse-lhe tudo o que lhe ia na alma desde os seus tenros 12 anos.

E o Toni, tal qual qualquer mortal, fez-lhe ver que o Benfica era muito mais que qualquer nome, figura ou símbolo. O Benfica só era grande porque o Benfica éramos todos nós!

Dito pela boca do homem que sempre admirei como o maior benfiquista de todos os tempos.

Desde esse dia, passaste a ser ainda maior, António Oliveira. Toni. Toni do Benfica. Cada vez que te vejo na televisão penso nas alegrias que me deste, nas tristezas que simbolizas, no benfiquismo puro. Nunca quiseste mal ao Benfica. Dessa gente já não há. Como tu já não existem.

Por isso e no dia no teu aniversário escrevo o meu primeiro post. Nunca poderia ser de outra forma. Como pude nunca ver quão simples era? Era simples… tão simples.

“Toni? Toni do Benfica?”. Parabéns António Oliveira.

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